Brincadeiras e astronomia com crianças da aldeia Amambaí


Histórias sobre o céu, brincadeiras e atividades ambientais e de popularização da ciência mudaram a rotina das crianças indígenas da aldeia Amambaí, no sul de Mato Grosso do Sul. Os educadores da Casa da Ciência da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e do Espaço Imaginário, por meio do projeto Memórias do Futuro, realizaram atividades no último final de semana de maio na aldeia.


“A gente vai para ensinar e aprende bem mais”, declara a bacharel em física Mayara Barros, da Casa da Ciência. Apesar da Casa ter feito outros trabalhos em comunidades tradicionais do Mato Grosso do Sul, esta foi a primeira viagem de Mayara para uma aldeia. “Foi uma experiência completamente diferente. Você tem que se modificar, aprender sobre a cultura deles”, explica a pesquisadora que ensinou sobre o sistema solar. Depois da explicação, as crianças produziram um planetário e aprenderam brincando sobre astronomia.


As brincadeiras fizeram parte da atividade que foi documentada pelos adolescentes da JIGA (Associação Jovens Indígenas Guarani-Kaiowá em Ação). Eles fazem parte do Memórias do Futuro como pesquisadores brincantes da infância na comunidade indígena e além de produzirem webdocumentários para o portal colaboratativo www.memoriasdofuturo.com.br, os adolescentes também multiplicaram seus conhecimentos, aumentaram a equipe e estão produzindo um documentário a respeito da memória do povo Guarani-Kaiowá de Amambaí.


Estrelas que contam histórias


Dois irmãos guarani-kaiowá atraíram a atenção de um malvado feiticeiro, que por inveja assassinou um deles. Compadecido da perda, a divindade indígena ressuscitou o índio e o colocou no céu, longe da maldade do feiticeiro. Como havia morrido, ele perdeu um pouco de seu brilho e foi chamado de lua. Seu irmão, também protegido pelo deus guarani foi enviado para o céu antes que o feiticeiro tentasse matá-lo, por estar vivo brilhava mais que seu irmão lua, ele é o sol. A lenda contada durante uma roda de história aos pés da fogueira fez parte das atividades da Casa da Ciência e do Espaço Imaginário.


“A astronomia aparece na cultura de todos os povos, e viemos aqui para ouvir de vocês que histórias contam sobre o céu”, explicou o professor doutor Hamilton Corrêa, mentor da Casa da Ciência. A etnoastronomia é o estudo dos saberes celestes relacionado aos povos tradicionais, como os indígenas sul-mato-grossenses.


Durante os quatro dias que ficaram na aldeia, a observação do céu a olho nú ou por telescópios marcaram as atividades. No primeiro dia, a lua visitou seu irmão durante o dia e permitiu que as crianças indígenas a analisassem detalhadamente no poderoso telescópio.


“A palavra astronomia não existe na nossa língua”, explicou o professor Ismael Morel, presidente da JIGA, que acredita nesse tipo de atividade para o resgate da tradição dos guarani-kaiowá. A astronomia faz parte da história dos povos tradicionais, existem mais de cem constelações indígenas, número expressivamente maior do que as ocidentais. A JIGA trabalha com o resgate da cultura, desde a oralidade que transmitia conhecimentos como o astronômico quanto as brincadeiras, traço cultural marcante em todos os povos.


“O índio brinca muito de imitação, é comum fotógrafos registrarem crianças com bebês no colo porque na verdade as meninas brincavam de imitar suas mães. O Memórias do Futuro foi importante para nos ajudar nesse resgate aqui na aldeia”, explica Ismael. Durante a primeira fase do projeto Memórias do Futuro, os adolescentes da JIGA ajudaram a produzir boa parte dos mais de 80 vídeos com registros sobre as histórias dos anciões da aldeia, da relação das crianças com a natureza e de brincadeiras feitas na tribo. Para conferir o material acesse www.memoriasdofuturo.com/videos

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