Para quem são os parques públicos de Campo Grande?

Tons de amarelo, laranjado e vermelho colorem o céu de Campo Grande, o reflexo no espelho d’água do Prosa forma um quadro entre as árvores do Parque das Nações. A cena se repete durante quase todos os dias do ano na Capital, mas quem a vê? Poucas pessoas usam o parque além dos adultos e idosos que se exercitam na pista de caminhada. Em outros parques e praças públicas a realidade é a mesma. Poucas crianças brincam, aprendem ou tem contato com a natureza nos espaços públicos de Campo Grande.

A Cidade Morena dispõe dos Parques das Nações Indígenas, Airton Senna, Jacques da Luz, Belmar Fidalgo e Sóter, além de parques lineares como a Lagoa, Córrego Segredo, Complexo Imbirussú-Serradinho, Cabaça, Bálsamo, Orla Morena, Jucelino Kubitschek e Córrego Lageado; e diversas praças. A infraestrutura aumentou consideravelmente nos últimos anos mas a ocupação saudável e sustentável desses espaços não seguiu a mesma proporção.

Segundo artigo dos professores da Junior Vagner Pereira da Silva e Paulo Ricardo Martins Nunes, da Uniderp, cerca 80% dos recursos para lazer em Campo Grande acabam sendo destinados para a construção de recursos físicos, ou seja, pouco sobra para manutenção e financiamento de atividades.

O ex-coordenador da comissão estadual de Saúde Ambiental do Conselho Regional de Medicina Veterinária de Mato Grosso do Sul, Newton Tércio, atua na causa ambiental desde antes de entrar na universidade e usa a educação ambiental profissionalmente. Doutor em genética e melhoramento animal e com experiência em estudos de fauna, ele defende a valorização dos parques por meio do uso. “É necessário incentivar o uso e dirigir atividades nos parques. O Parque das Nações, por exemplo, tem um uso contraditório. As pessoas preferem ficar nos entornos causando poluição sonora e até mesmo residual ao invés de entrar”, explica.

Para Tércio, é necessário uma mudança na política de uso. “O poder público precisa abrir as portas dos parques. Aqui a gente entra [no parque] e a primeira coisa que vê é uma placa de proibido”, conta o Doutor que defende o uso como melhor meio de conservação dos espaços públicos. “Se as pessoas começam a usufruir do parque e notarem que é um lugar bom, elas mesmas vão cuidar”, pontua.


A natureza como escola

Muito se fala em educação para promover essa consciência, mas pouco se fala sobre a forma de ensinar. A pedagoga formada pela PUC-SP com experiência em educação de crianças no Pantanal, Leila Amâncio, defende o aprendizado de forma diferente e interdisciplinar. “Acredito que as crianças paulistas de escolas privadas devem suas noções de meio ambiente a projetos que ensinam pelo contato com a natureza”, declara.

Nas comunidades tradicionais de Mato Grosso do Sul, a bacharel em física Mayara Barros notou a diferença entre as crianças indígenas e as da cidade. Mayara atua na Casa da Ciência de Campo Grande com trabalhos de popularização e divulgação científica e recentemente esteve na aldeia Amambaí em uma parceria com os educadores do Memórias do Futuro e da Casa. “Senti um respeito e uma simplicidade muito maior. A relação deles com a natureza é diferente”, explica. “Em um momento uma bola foi parar no meio de um matagal alto. De repente, uma criança de cerca de 8 anos saiu correndo, entrou no mato e pegou a bola. Simples assim, mas uma criança da cidade ou eu mesma não faria isso”, conclui.

Lydia Hortélio, uma das maiores especialistas em Cultura da Infância, define em um de seu artigos que a criança tem um hábitat natural e fora dele “só apresenta desconforto, desajustes intermináveis e uma cadeia de equívocos que só poderão ser sanados se reconduzirmos nossas Crianças à sua verdadeira  Casa: a Natureza’. A pesquisadora conclui que “Ela [a natureza] é o espaço primordial, portador da Vida, com suas múltiplas dimensões e desafios”.

 

Um outro olhar

O fotógrafo de natureza, Ari Lopes da Rosa, frequenta diariamente os parques de Campo Grande e se preocupa com o uso que se faz desses espaços. “Já vi gente até cortando árvore no Itanhangá”, denuncia. Fotografar natureza exige grande sensibilidade, como explica Lopes. “Faço fotos onde as pessoas sempre passam mas quando olham as fotografias pensam que é outro lugar. As pessoas não enxergam a natureza bela dos parques”.

O fotógrafo acredita que é necessário despertar esse olhar por meio da conscientização a longo prazo e que o poder público tem que ser mais ativo. “Precisam colocar pessoas para cuidar do parque, mas não pode ser qualquer um. Tem que ser gente que se interessa pelo assunto”, conclui.

 

fonte: http://www.memoriasdofuturo.com.br

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