Infância amazonense revela necessidade de mobilização

Numa articulação com o Instituto Chico Mendes de Preservação da Biodiversidade, a Avante – Educação e Mobilização Social vai a Lábrea, ao sul do estado do Amazonas e conhece de perto a realidade da primeira infância amazonense. Na oportunidade, Ana Oliva Marcilio, coordenadora da Linha de Formação para Mobilização e Controle Social, da instituição e do Projeto Primeira Infância Cidadã (PIC), participou de duas Assembleias de povos indígenas: a do Conselho Deliberativo da Reserva Extrativista (Resex) do Ituxi e da Assembleia para Aprovação do Plano de Gestão Participativa dos Povos Indígenas Catitu, realizada pela Operação Amazônia Sustentável (OPAN), em parceria com a FUNAI. “Os dois encontros foram atividades riquíssimas, com participação e articulação comunitária e social em alto grau. Além disso, foi uma oportunidade de apresentar a RNPI a povos distantes e compreender um pouco a realidade da primeira infância local”, relatou Ana Oliva.

Lábrea é uma das cidades amazonenses na lista vermelha do desmatamento. O município abrange duas reservas extrativistas, uma área de Floresta Nacional e diversas terras e povos indígenas. As reservas do Ituxi e do Médio Purus, assim como a Floresta Nacional situam-se na divisa do estado e são frutos de um investimento federal de preservação da biodiversidade e também da diversidade sócio cultural presentes neste território. Segundo Ana Oliva, para consolidar esses espaços de preservação social cultural e natural, o trabalho de mobilização e articulação social é intenso.

Na Resex do Ituxi, na comunidade de Volta do Bucho, a mais de quatro horas (de barco veloz) de Lábrea, onde permaneceu por três dias, Ana Olivia apresentou a Rede Nacional Primeira Infância (RNPI) e o Plano Nacional Primeira Infância (PNPI). Além disso, teve a oportunidade de interagir com lideranças das diversas comunidades que compõem a reserva e outras entidades participantes do Conselho Deliberativo da Resex. Entre elas, representantes do Conselho Nacional de Seringueiros (CNS), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Associação de Pescadores de Lábrea (APEL), Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA) e Secretaria Municipal de Educação (SEMED). “Mas o melhor momento foi quando encontrei a ‘brecha da primeira infância’, em um cadastro apresentado. Num slide sobre a população em idade escolar que iniciava aos 6 anos”, contou.

Primeira Infância ausente

Durantes os dois encontros, Ana Olivia percebeu que, apesar da presença das crianças, o tema Primeira Infância era praticamente ausente dos debates. “As famílias presentes, as infâncias todas presentes, mas sem muita voz. Ali, no entorno de seus pais, eram livres para estar, mas em silêncio, no espaço de reunião ou brincando lá fora, entre árvores, rios, borboletas, botos e sereias”, disse se referindo às informações que obteve sobre imaginários das crianças amazonenses.

Ela conta que, desde o encontro com os povos Catitu, a questão da invisibilidade da Primeira Infância lhe incomodava, o que a levou a tentar lançar luz sobre o tema. “Em Resex do Ituxi, com o ProInfância na cabeça, iniciei conversas sobre educação infantil e políticas públicas para a primeira infância no país. A comunidade ficou super mobilizada e tocada pela visão primeira infância e apresentaram suas demandas. Eles querem saúde, educação, lazer, cultura e proteção”, contou.

De volta à Lábrea, Ana teve a oportunidade de se reunir com Valdinei Vital, secretario municipal de Educação. Para sua alegria ficou sabendo que o município já aderiu ao ProInfância. O secretário, no entanto, lhe mostrou um panorama complicado do programa. Ele considera o alcance de 100% das crianças de 4 e 5 anos em locais de difícil acesso e baixa densidade demográfica, como as Resex, um grande desafio.

Desta forma, conclui-se que essas comunidades tendem a não acessar políticas públicas e direitos previstos e assegurados por lei. “Esse é um dos desafios que temos que enfrentar se quisermos efetivar os direitos da primeira infância para todas as crianças. Desafios Amazônicos! Mas potencial transatlântico! A articulação, participação e mobilização da comunidade é bem forte. Há também profissionais locais empenhados em trabalhar de forma parceira e articulada. Tudo isso faz essas comunidades solos férteis para o plantio da semente primeira infância”, concluiu.

Conversa com as crianças amazonenses

Ao final dos encontros, Ana Marcílio foi contemplar a vista à beira do rio. De repente, se viu cercada por crianças da faixa etária entre 3 e 12 anos e começou ali uma conversa – “comecei com apenas duas perguntas, uma de cada vez. A primeira, o que vocês gostam”. Elas responderam: banho, bala, milito (salgadinho), barco, bicicleta, avião, bola, boneca, bombom, chocolate, ovo de camaleão, já comeu? “Não!”, respondeu encantada com a experiência.

A segunda pergunta foi: “o que querem ser quando crescer?”. As respostas não demoraram: “piloto de avião; jogador; pastor evangélico; crente e cantar o hino, eu gosto de cantar…”. Uma menina chamou a atenção para o fato de estarem todos sob o sol e apontou a sombra para onde o grupo seguiu. E outra pergunta: do que vocês tem medo? “Boto; sereia, ela encanta a gente; porco, queixada, cobra, jacaré, paca. “Paca?”, pergunta Ana, querendo saber os detalhes daquele mundo infantil desconhecido. “É, um caboclinho da mata, índio, urubá… “O que é urubá?”. É índio, eles matam a gente, com flecha de veneno”, explicou.

Mas foi o medo de Ana que cresceu quando a conversa se aproximou dos temas pautados pela RNPI: a violência familiar, social e comunitária e a atuação do conselho tutelar. E foram surgindo as histórias de relação e conflito indígena, as “peias” ou surras dos familiares, o medo do conselho tutelar que corre atrás deles nas praças da cidade.

Em outra comunidade dessa mesma reserva, aos seis anos de idade a menina desabafa: “Vida dura essa nossa, hein primo?!” (Ao saber que o primo está com malária). Ela mesma, este ano, havia contraído, por duas vezes, a doença. Nos momentos de pausa na conversa Ana oferece aos meninos a possibilidade de escolha entre brincar ou conversar. “Surpreendi-me com a necessidade de conversar que crianças tão novas demonstraram”, relatou.

A carência de se expressar das crianças inspirou Ana a combinar um retorno. “Desta vez vamos fazer um conselho consultivo de crianças enquanto os adultos realizam as suas atividades, depois apresentaremos a eles. Penso que vai ser um exercício interessante de participação infantil”, finaliza.

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