MOBILIZAÇÃO PELO HORTO FLORESTAL

O HORTO

Em mais um episódio de pouco exercício democrático na tomada de decisões

sobre as modificações urbanas na Capital, a Prefeitura Municipal anunciou, há poucos

dias, a destruição da pista de bicicross existente no Horto Florestal para permitir a

transferência dos ambulantes de alimentos instalados na avenida Afonso Pena. A

municipalidade de Campo Grande, através de seus atuais gestores, parece ignorar que a

cidade pertence aos seus habitantes, com eles devendo partilhar seus projetos e

O Horto Florestal é espaço urbano idealizado para permanecer como área verde

em período ainda anterior ao reconhecimento de Campo Grande como cidade. Segundo

o sítio eletrônico da Fundação Municipal de Cultural, a Fundac, foi em 11 de outubro de

1912, que o então Intendente José Santiago reservou áreas de terras às margens do

Córrego Segredo para uso público. Certamente, o Intendente já vislumbrava ali área

importante a ser preservada para a Vila de Campo Grande, que só seis anos depois, em

Diz a Fundac: “... local dotado de características próprias de vegetação, onde

dois braços de córregos juntam-se ali para dar origem a um rio de grande importância

para a região, o Anhanduizinho. Esta reserva, abrigou inúmeras atividades, pois como

Matadouro Municipal ou Salgadeira como era popularmente chamada, pois ali que se

salgava o couro do gado que era posteriormente enviado para São Paulo pela

Percebe-se que o uso do espaço já abrigou atividades não propriamente de lazer

ou abrigo de espécimes vegetais, mas o anúncio de futuro funcionamento de intenso

comércio de alimentos ao ar livre chama a atenção, não exatamente por seu

despropósito, mas pela falta de diálogo sobre área onde a cidade teve um dos seus

inícios e de grande importância no imaginário da população: a decantada confluência

O Horto foi também o primeiro Parque Municipal de Campo Grande (1923) e

passou a atual denominação Horto Florestal já na década de 1950, quando começou a

ser cuidado por Antônio de Albuquerque, antigo funcionário municipal. É ainda a

Fundac que nos informa: “Daí, essa área de mais de seis hectares, passa a ser chamada

de Horto Florestal e consistia na sede do Serviço de Parques e Jardins da Prefeitura.

Suas características sempre se mantiveram preservadas, pois o Horto produzia muitas

espécies de árvores para a arborização não só da cidade de Campo Grande como

também para as cidades vizinhas, inclusive Cuiabá, que na época era capital do

Esta configuração, iniciada na década de 50, de certa forma permanece até hoje.

O Horto Florestal, embora não produza mais mudas de árvores destinadas a tornar

Campo Grande uma das cidades mais arborizadas do País, é ainda lugar parcialmente

sombreado, que deve muito bem possuir árvores centenárias. Aliás, como vimos, o

Horto vai completar 100 anos, em 2012.

Com o tempo o uso foi-se diversificando para abrigar, desde a década de 1980,

um teatro de arena, setor administrativo e a Patrulha Mirim, num dos dois lados

cortados ao meio pela avenida Fernando Correa da Costa. Em 1993, novo projeto é

aprovado pela Prefeitura mediante discussão popular, segundo seu autor, o arquiteto

No mês de outubro daquele ano, o Horto Florestal é interditado para reforma.

Segundo a Fundac, “o então Prefeito Juvêncio César da Fonseca, afirma que o mesmo

será transformado no maior complexo de lazer de Campo Grande”. A obra foi entregue

em maio de 1995, com novo nome, "Parque Florestal Antônio de Albuquerque", em

homenagem ao antigo funcionário da prefeitura.

O nosso Horto abriga então, nos dias de hoje, além dos equipamentos já

mencionados, biblioteca municipal, lanchonete, parlatório, banheiros, playground,

espelho d'água, cancha de bocha, cancha de malha, pistas de corrida e bicicross (aquela

mesma que vai ser desmanchada), pista de skate, orquidário (que não funciona, mas que

poderia voltar a funcionar) e oficinas de arte.

Com toda essa diversidade, a falta de discussão com a população parece ainda

mais grave. São diversos os usuários, são diversas as finalidades de uso, entre elas o

lazer de contemplação, muito apropriado para um espaço ainda verde. O que será do

Horto centenário com a instalação de cerca de 500 pontos de lanches, funcionando

durante toda a noite? É isso mesmo o que queremos?

Falo do Horto com certa propriedade, embora nem soubesse muito sobre ele,

confesso, antes de consultar o site da fundação municipal. Sentindo-me pessoalmente

ameaçada em minhas boas lembranças do local, resolvi escrever. Morei ao lado do

Horto, na Vila Sargento Amaral, e era o lugar onde meus irmãos e meus amigos íamos

nos aventurar, despreocupadamente na década de 70, antes dessas obras todas

Para o Horto convergiam as andorinhas no final da tarde, quando Campo Grande

ainda recebia a bela e rumorosa visita diária delas. Com as andorinhas conviviam

macacos Bugio, dos quais tínhamos medo, por conta dos gritos assustadores e das

manifestações de valentia dos machos que apareciam de quando em quando aos

frequentadores. Enfim, uma pequena mancha de natureza encravada naquilo que

poderíamos comecar a chamar de centro histórico de Campo Grande, nas palavras de

uma amiga. Reparem que há uma concentração enorme de patrimônio material e, por

que não, imaterial (lembranças, vivências, histórias passadas de família em família), no

entorno do Horto. O Mercado Municipal, o Colégio Osvaldo Cruz, a Matriz de Santo

Antônio, a casa de Lídia Baís estão todos naquela região, por isso mesmo, sensível às

modificações apressadas e sem contexto.

Por isso, para quem está decidindo sobre o Horto é bom pensar coletivamente

antes de alterar a fisionomia de um lugar tão significativo e que faz parte da história de

tanta gente, há quase uma centena de anos (aliás, poderíamos pensar numa

Merecemos ser consultados, merecemos conhecer o projeto pensado para aquele

lugar (há algum projeto?), merecemos decidir se queremos mudar a destinação do

parque, assim como os dogueiros ou lancheiros merecem um bom espaço, com todo

conforto e meios de exercerem dignamente seu trabalho e continuarem alimentando os

Pensando nisto e sem perder tempo, manifesto desde já minha opinião de

moradora quase cinquentenária da Capital: sou contra que aquele espaço onde se pode

ficar embaixo das árvores, onde ainda há refúgio contra o barulho da já caótica vida

urbana do centro de Campo Grande, onde algumas marcas do passado teimam em ficar

registradas, seja transformado em local de lazer alimentar.

Certamente deve haver outros bons espaços para isto, mais apropriados, onde se

possa efetivamente construir uma infraestrutura compatível. O Horto não se deve prestar

a ser descaracterizado pela necessidade contínua de obras (esgoto, fornecimento de

água, iluminação adequada etc.) exigidas pela atividade de serviço de lanches. Muito

útil, mas em lugar mais adequado, sem o improviso que parece marcar esta feliz ideia

A praça Castro Alves é do povo como o céu é do avião, já dizia a marchinha

carnavalesca. O Horto é do povo campograndense e esse pertencimento dele para

conosco e nosso para com ele precisa ser revalorizado.

Adriana Rocha é advogada

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