Brincar para afirmar a vida (parte 1)

Por Lia Rangel e Fernanda Martins


Era uma sexta-feira de calor, nada fora do comum para o centro-oeste do país. Em agosto a região da capital sul-mato-grossense, Campo Grande, é castigada com muitas secas. Quem é de lá já está acostumado com as temperaturas que ultrapassam muitas vezes a casa dos 40o. A novidade é que a Orla Morena – um calçadão de 2,3 km de concreto linear, batizado ironicamente de parque, com poucas árvores, sem praia nem rio – começou a encher de gente. Sol à pino, eram 15h. Crianças de todas as idades eram as primeiras a chegar. A movimentação ia atraindo os mais velhos e aos poucos tinha gente vindo de todos os cantos. A atração era a Caravana Tecnobrincante, uma mistura de circo mambembe com exposição multimídia itinerante. Adultos fantasiados, entoando instrumentos de percussão e violão, convidavam quem vinha se aproximando para fazer parte de uma grande roda.

“Ole ole olá, a caravana vai começar”. A ciranda ia aumentando a medida que o grupo de brincantes ia propondo atividades: amarelinha, peteca, pula-corda, bolinha de gude, corre-cotia. Os mais desconfiados, espreitavam ao longe e preferiam ir observar a exposição resultado do trabalho de adolescentes selecionados para participar do projeto Memórias do Futuro, o grande responsável por tirar a Orla Morena do paradeiro. Os mais de 70 vídeos e fotos, produzidos com celulares ao longo de 4 meses, apresentavam a documentação das experiências e memórias da infância de integrantes de 8 diferentes comunidades do estado do Mato Grosso do Sul. Tinha registro de tudo: cantigas, brincadeiras, contos, depoimentos de gente miúda e de seus pais e avós.

“Como em uma máquina do tempo, vimos adultos acessar aquilo tudo que ficou para trás e as crianças viviam aquele momento como se fosse eterno. Brincar é atemporal”, conta Lia Mattos, parceira do cineasta Alexandre Basso e de Andrea Freire, idealizadores do projeto.

Naquela tarde do dia 24 de agosto a equipe do Memórias do Futuro realizava uma das últimas apresentações que marcaram o encerramento da empreitada iniciada em março de 2012 e que levou mais de 5 mil pessoas a ocuparem ruas, praças, parques e escolas do Mato Grosso do Sul com brincadeiras tradicionais da cultura brasileira, rodas de contação de história e reflexões sobre a importância de todo aquele movimento. “Brincar é descoberta, movimento, desafio e aprendizado. Brincando, a criança se expressa, desenvolve a criatividade e entra em contato com o que há de universal na história de um povo”, explica Lia.

A Caravana Tecnobrincante foi o fechamento de um longo processo que teve início com a capacitação de 20 jovens de comunidades quilombolas, ribeirinhas, indígenas, fronteiriças e urbanas do Mato Grosso do Sul para a investigação e documentação de brincadeiras de diversas gerações. Tudo bem documentado e publicado no sitewww.memoriasdofuturo.com.br, espaço que tem como objetivo se tornar um grande banco de dados colaborativo sobre a cultura da infância no Brasil. Não à toa, Andréia Freire, diretora do Pontão de Cultura Guaikuru, define o projeto como “uma grande roda onde as ações de multiplicam em redes virtuais e presenciais”.



O Memórias do Futuro, financiado pela Fundação Telefônica Vivo, foi realizado pelo Espaço Imaginário, organização que desenvolve ações pela defesa da cultura da infância e do direito de brincar, e do Pontão de Cultura Guaikuru, ambos com sede em Campo Grande. O projeto foi organizado em três etapas. Na primeira, os jovens selecionados participaram de oficinas de formação com profissionais de diversas regiões do país, que prepararam a turma para que eles pudessem sair a campo. Entre eles, Lydia Hortéllio (BA), uma das maiores especialistas em cultura da criança no Brasil (de camisa lilás na foto acima); os artistas multimídia Igor Amin e Vinícius Cabral (MG), abordando o uso de novas mídias; o artista plástico Gandhy Piorski (CE), que levou aos jovens um pouco de sensibilização a respeito da cultura da infância; e o cineasta Alexandre Basso (MS), orientando sobre produção, técnicas de filmagem e edição.

Depois da capacitação, os jovens voltaram às suas comunidades para pesquisar e registrar o universo das brincadeiras e jogos. Numa aliança entre tecnologia e a tradição, utilizaram celulares de alta definição para a produção de vídeos, fotos e textos, redescobrindo e resgatando a identidade cultural de cada lugar. Cada adolescente recebeu uma bolsa de R$ 150,00 mês para participar do projeto.

Segundo a diretora e coordenadora pedagógica do projeto, Lia Mattos, “a diversidade cultural e geográfica dentro do Estado foi importante para interação dos jovens e aprofundamento do trabalho de pesquisa. Brincadeiras, jogos e cantigas permitiram perceber um universo muito mais amplo, que retrata os costumes das diferentes comunidades”.
Finamente todo o material reunido foi organizado numa exposição multimídia itinerante que percorreu, a partir de julho, 21 locais entre praças, aldeias, parques, escolas e pontos de cultura de Campo Grande, Amanbai e Corumbá.

“A Caravana promoveu o intercâmbio cultural, aproximando gerações e possibilitando trocas de saberes entre crianças, jovens e adultos destas localidades. Oportunidade única de aprofundar o nosso olhar sobre a infância brasileira”, avalia Lia Mattos.

 

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