Ligue a televisão, desligue seu filho (parte 2)

Por Lia Rangel





“Se guardarmos nossas histórias só para a gente, elas morrerão, como uma borboleta sem asas. Mas se libertarmos as nossas histórias, cada vez mais ela ganhará a cor de quem a conta e ela será sempre encantada. Contemos histórias meu povo!”, pede a moça, meio fada, meio cigana, adornada com flores e fitas coloridas. Ao redor da roda onde ela narra fantásticas aventuras, ninguém pisca. A imagem gravada durante uma sessão de contação de história na capital sul-matogrossense, Campo Grande, abre o vídeo institucional que apresenta o projeto “Memórias do Futuro”.

Por traz deste doce convite, está a razão que levou o casal formado pela baiana Lia Mattos, designer e montadora de vídeos, e o cineasta Alexandre Basso, a trocar os estúdios de edição pelo sonho de consolidar um processo contínuo de documentação e reflexão sobre a infância. “O vasto repertório da cultura da infância no Brasil está encoberto, sendo esquecido”, revela Lia. “Isso porque pais e avós tem cada vez menos tempo e espaços dedicados para contar histórias a seus filhos e netos, a ensinaram as cantigas de suas infâncias e as brincadeiras de suas memórias”, complementa. O casal rodou diversos estados do Brasil documentando o imaginário das crianças durante vários meses até amadurecerem a proposta que culminou no desenvolvimento do “Memórias do Futuro”.

A realidade encontrada por eles mostra que atualmente os próprios pais vem exigindo que os filhos amadureçam mais rápido, cobrando a alfabetização cada vez mais cedo e estimulando posturas sociais e profissionais precoces. “Além disso, a escola que precisa cumprir um extenso currículo de disciplinas deixa a formação emocional (que nasce na brincadeira) em segundo plano”, lamenta Alexandre.

Com base nos estudos e pesquisas de filósofos e estudiosos da educação como o francês Jean Piaget, que discorre sobre a construção de autonomia dos indivíduos, o italiano Loris Malaguzzi que aposta na importância do aprendizado das crianças a partir de trocas entre elas e Lydia Hortellio, umas das maiores referências no Brasil sobre a importância das brincadeiras na formação dos indivíduos e da sociedade, eles defendem que o brincar não deve ser tratado apenas como uma forma de entretenimento.

“Brincar é condição essencial para o desenvolvimento do ser humano ainda novo. A criança quando brinca desenvolve importantes capacidades e habilidades como atenção, memória, coordenação motora, criatividade, representação, fala, escrita, traço, harmonia, ritmo. A brincadeira e o brinquedo refletem a realidade cultural na qual a criança está inserida, tem uma ligação direta com a sua origem, heranças e relações”, explica Lia.

A constatação de que a infância está sendo encurtada também pode ser comprovada pelas observações dos jovens que participaram do processo de documentação promovido pelo Memórias do Futuro. “As crianças estão se tornando adultas muito cedo. Elas preferem ir ao shopping do que ir brincar”, conta Giulia Shroder, 14 anos, integrante do ponto de cultura Casa de Ensaio. Outro fator identificado por eles como responsáveis pelas mudanças de hábitos das crianças é o crescimento das cidades que oferecem poucos espaços públicos dedicados ao convívio e que impõe um estilo de vida moldado para a adaptação em moradias cada vez menores. Assim, as crianças tem de passar muito tempo dentro de casa e com isso a televisão passa a exercer um papel sedutor e hipnotizador. “A falta de tempo dos adultos tem contribuído fortemente para as crianças ficarem na frente das telas. A criança vem sendo “domesticada” de acordo com os interesses comerciais da televisão”, denuncia Lydia Hortellio.

A complexidade da situação ainda é agravada quando se percebe a normatização “de uma atitude cultural onde a criança perde sua inocência com maior rapidez recebendo da mídia grande quantidade de informações que estimulam a sexualidade, o consumo, a padronização comportamental”. Com a introdução da televisão no centro do ambiente familiar, o convívio das crianças entre elas vem diminuindo e também o espaço de troca entre as gerações. Por estes fatores, jogos de peteca, bolinha de gude, taco, cantigas de roda, que durante séculos entretiveram e serviram de fonte para despertar a imaginação de crianças de todas as idades vem se transformando em “borboletas sem asas”. Como alerta a contadora de história, sem que as brincadeiras sejam passadas de pai para filho, elas perdem o encanto e morrem.

 

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