Arte pode ser usada no ensino de matemática e engenharia

Dizia o poeta português Fernando Pessoa que “a ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas, como se sente que são”. É mais ou menos seguindo essa lógica que um grupo de designers, educadores e artistas está propondo que a arte se junte a parceiros, digamos, menos usuais: a ciência, a tecnologia, a engenharia e a matemática. Em escolas e universidades americanas, essas quatro áreas são comumente agrupadas em uma só, que chamam de Stem (sigla para Science, Technology, Engineering and Maths). Agora, a proposta que esse grupo, liderado pelo reconhecido designer John Maeda, está trazendo é que o Stem seja substituído pelo Steam, que sustenta as mesmas áreas do conhecimento anteriores, mas acrescenta a arte como um fio que interliga as outras disciplinas. Além disso, em inglês, Steam significa vapor, que, em um sentido mais abstrato, pode ser considerado como vaporizar, trazer novas ideias.

Uma escola que já utiliza a Steam para ensinar é a Blue School, em Nova York, fundada por uns rapazes azuis que você já deve ter visto na televisão. “O que estamos fazendo é trazer o máximo de neurociência para a escola, não para testar as crianças mas sim para que entendam como o cérebro delas funciona e como aprendem. E a arte ajuda nisso”, afirma Goldman, membro do Blue Man Group. Na escola, os alunos são sempre estimulados a encontrar a dimensão artística de todas as atividades que desenvolvem, desde uma ida ao museu até uma aula mais tradicional de matemática.

A ideia de trazer a sigla para a escola veio da experiência nos palcos. “Nas loucuras que fazemos nas apresentações, não estamos só fazendo arte, mas também engenharia e ciências. Catapultamos gelatina na platéia, mas não podemos acertar as senhoras de idade. Isso tem matemática envolvida”, afirma Goldman, de bom humor. Independente do lugar em que essa metodologia é aplicada, o que ajuda a fazer com que as diferentes áreas do conhecimento se encontre, no fim das contas, é a criatividade.

 

Ainissa Ramirez, da Universidade de Yale e também defensora da mudança, acredita que até hoje a educação treina as pessoas para responder perguntas assim como em um jogos de cartas, que traz as as respostas no verso. Para ela, as escolas e universidades precisam “preparar os alunos para um jogo onde atrás de uma carta de perguntas não há uma resposta”. “Nós precisamos de criatividade, curiosidade. Precisamos resolver problemas e fazer amigos por meio das nossas falhas. Descobertas são feitas um erro por vez”, afirma Ramirez.

E não pense que os educadores estão sozinhas na luta por um ensino mais artístico. Durante o SXSWEdu, a Adobe apresentou uma pesquisa realizada com profissionais de diversos segmentos que comprova a importância da criatividade no mundo atual. Entre as 1.025 pessoas entrevistadas, 80% dizem que ser criativo é fundamental para levar o mundo para frente; 62% afirmam que a escola é incapaz de desenvolver isso e 71% acreditam que a criatividade precisa ser ensinada como outros cursos ou perpassar por todas as outras disciplinas. Mas existe mesmo uma maneira de ensinar a criatividade? Ken Robinson, um dos maiores defensores da inovação e criatividade no ensino, tem algumas das palestras Ted mais assistidas do YouTube. E até o MIT entrou na dança. Em fevereiro desse ano lançou, pela primeira vez, um curso aberto e on-line de aprendizagem criativa.

Fora dos muros acadêmicos

John Maeda, que é presidente da Rhode Island School of Design, é tão entusiasta desse movimento que lançou um site devotado à causa, o Stem to Steam. Quando criança, seu pai dizia para ele dar mais importância para a matemática, porque arte não dava emprego para ninguém. “Hoje a arte tem grande importância. A revolução do MP3 só aconteceu com o iPod porque ele tinha design. O mesmo com os carros depois que a Ford inovou nos seus modelos”, diz. Para ele, mudar o nome da sigla não vai terminar com ela, ao contrário, acrescentar artes e design à sigla vai “unir mentes criativas para agregar conhecimento no mundo”.

E até na televisão a Steam já está presente. Rosemarie Truglio, presidente da organização que produz o Sesame Street (série norte-americana que teve no Brasil a versão chamada de Vila Sésamo na década de 70), afirma que o objetivo é fazer com que as crianças se questionem, observem, investiguem e reflitam sobre suas ideias. Durante o episódio Figure it out, baby – disponível no YouTube por uma gravação realizada por um usuário –, os personagens percebem que precisam ter uma banda para alcançar o sucesso e, para isso, constroem seus próprio instrumentos. “Tecnologia é uma ferramenta como outra e eles descobrem isso. Eles próprios fizeram seus microfones, guitarras e o design de cada um dos objetos”, explica Truglio.

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